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25 de novembro de 2010

A história do cão José

Oi queridos,

Aos poucos eu venho deixando de escrever. Não sei se por apatia da alma ou por tempo consumido em tarefas diversas. Hoje ao participar a situação do Projeto Hammã à uma amiga, ela me deu o seguinte conselho: escreva. Só assim existirá a chance de compartilhar suas preocupações e sentimentos. De forma que estou tentando novamente.

O programa de envio já está ficando na classe dos "arcaicos", dando problemas, emails indo direto prá lixeira, os dois últimos que enviei não obtiveram retorno, enfim,uma série de motivos que desmotivam e um único que alimenta: a causa.

O fato é que ando bem sobrecarregada, penso que estou com todo meu emocional já muito vulnerável depois de três anos totalmente imergida em tudo que abrange o trabalho de proteção. Animais, contas, divídas, eventos, captação de renda, ações diversas, etc. Contudo continuo nessa marcha incessante, sempre buscando o afago divino de Deus, aprendendo que amor é a palavra que liberta.

Interessante que a gente vive a ilusão, penso que todos os protetores são assim, de que um dia a gente não vai se surpreender, que a coisa vai andar por uma rota normal, como o dia de ontem, como tudo que a gente vê todos os dias, tudo que escutamos e não haverá surpresas, a emoção será a mesma. Lêdo engano! A cada caso, um desgaste profundo é causado. Uma dor imensurável, um pavor ao horror assistido, à covardia aplicada, à preocupação que assola com compromissos feitos.

Vivemos uma rotina bem descrita numa música de Renato Russo, Metal contra as Nuvens, que fala coisas assim: "É a verdade que assombra/o descaso que condena/a estupidez o que destrói/tenho os sentidos já dormentes/essa é a terra de nínguem/sei que devo resistir/eu quero a espada em minhas mãos."

Deixem eu contar a história de José, resgatado das ruas ontem. Demos esse nome à ele por causa da história de José do Egito.

Ele já havia sido visto uns dois dias antes por uma amiga do Projeto, que sempre participa de alguns casos e ajuda como pode. Ela ligou e disse que ele estava muito magro e achava que não sobreviveria muito tempo, era perambulo nas ruas. Fui até ao local, procuramos por ele e ele apareceu... sujo, esfarrapado, ferido, maltratado, amargo, tinha sede e fome, seus olhinhos já não pediam mais nada, tanto fazia, nada podia ser pior que aquele estado brutal. Era um peregrino no inferno. Já não havia mais nada depois de dias perambulando em um estado de morto-vivo, sem nenhum acalento, se desviando dos olhares de repulsa, sem ajuda, sem amor, sem carinho. Trazia uma coleira e um fio de energia amarrado e cortado, dando a impressão que em algum momento ele fugiu, talvez ainda acreditando que sorte melhor teria fora do confinamento. Fiquei tão horrorizada com a cena,que por um breve momento pensei se talvez eu conhecesse alguém capaz de deixar um animal amarrado naquela condição e eu não soubesse disso! Será meu Deus que eu digo bom dia a alguém tão desprezível e que faz isso?

Tentei uma possível aproximação, mas o pavor já havia lhe tirado qualquer crédulo, várias tentativas sem sucesso, até que depois de uma verdadeira maratona (caminhamos kilometros) na tentativa de laçar o menino, com direito à todo tipo de sofreguidão que por seu medo muitas vezes quase entrava debaixo de carros em movimento, uma criança com a bondade de seu coraçãozinho conseguiu acuá-lo. Ele esbravejou, sacudiu, avançou com o pouquinho de resistência que lhe sobrara, até que se acalmou. Pedimos água e comida para um morador, e José sentou, comeu, bebeu como um rei. E depois se entregou ao cansaço em cima de uma tábua velha como se fosse uma cama. Então fui avaliar seu estado. Tinha a musculatura do crânio afundada, feridas por toda parte, uma tão profunda na cauda que pensamos que seria necessário amputá-la, secreção nos olhos, perda de coordenação motora, anorexo, todo um quadro que sugeririria o fim da vida. Os sintomas descritos são de Cinomose, contudo, ele estava lúcido e se alimentando. Achamos por bem tentar. Ligamos para todos os contatos possíveis para que um carro o transportasse... essa parte foi a mais difícil, ficamos por duas horas aguardando ajuda, até que chegou, o internamos, fizemos os exames e ele está no soro, comendo como um touro e pedindo agora prá viver.

No processo de resgate passei perto de seus dentes por duas vezes, claro que isso me causou um certo receio. Hoje quando fui à cliníca, vi que a mangueira do soro estava enroscada em sua pata.Ainda com receio, tentei tirar devagar, sem assustá-lo,e para minha grande surpresa e emoção, José levantou sua patinha e me ofereceu num gesto de reconhecimento e gratidão.

Então, sei que boa parte aqui conhecem essa qualidade do cão e já tiveram o prazer de desfrutar dela. E sabem também que ela sempre se apresenta em momentos que a gente precisa aprender de bondade.

Lembrei-me de Salomão em seu último momento, pedindo lugar nos meus braços,e Hulk antes de falecer me dando a cabeça para um afago.. .(estamos falando de animais de comportamento agressivo). Acho que eles sabem das coisas.

Bem queridos, é isso.O pedido de hoje não é diferente dos passados. Precisamos da sua ajuda. O canil não terminou de ser pago esse mês. Daí a coisa vai ficando "cabulosa". Os exames nos deram esperanças, a veterinária que o acompanha está otimista, fato que nos tranquiliza em muito por saber que nossos animais são assistidos por profissionais que colocam a vida acima do lucro. Algumas pesquisas nos deram outras alternativas paralelas como acupuntura e nós temos certeza absoluta de que se houver a ajuda necessária... essa vida será nossa!

Hoje vou terminar seguindo as opiniões inteligentes de Renato Russo que traduz bem o momento vivido com José ontem:

"...e de pensar nisso tudo,eu homem feito tive medo e não consegui dormir."

Grande beijo em todos e fiquem com Deus.

Meibel (ainda sem Jacqueline).

Para ajudar no tratamento do cão José clique aqui.

5 comentários:

Jussara disse...

Que desabafo e que história chocante!
É assim que os guerreiros, humanos e sensíveis às causas do mundo e da humanidade se expressam. Às vezes pensam em parar, mas há um imã que os puxa. Amor... crença no ser humano... autruismo... doação... A vida não tem sentido se assim não agirem. A vida é dura, sofrida e triste, mas, são essas ações, esses resgates de vidas que nos trazem alegrias e nos chamam para viver. Até quando? Não sei. Mas sempre haverá um que deixará levantada a bandeira desta luta. Talvez seja preciso reavaliar as armas e estratégias usadas e, então, com novos passos continuar. Pense nisso. Tô nessa, conte comigo. Um abraço. Jussara.

Projeto Hammã disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Projeto Hammã disse...

É verdade Jussara.Reavaliação de atitudes e conceitos.

"Amar é preciso,matar não é preciso."
( Fernando Pessoa,nos dias de hoje)

Mauricio Mancuzo disse...

Meibel, estou em Goiânia há três anos. Vim de São Paulo e minha família (mãe e irmã) é de protetores.
Neste período aqui vi poucos animais abandonados e menos ainda em estado deplorável como esses que vejo nas suas postagens. Também neste período, resgatei seis animais aqui em GYN. Dois tiveram de ser sacrificados(em clínica veterinária na minha presença, pois eram casos de cinomose terminal), dois consegui dono e dois estão aqui. Tonico SRD e Sheap (poodle), cães. Vejo minha mãe em uma situação dificílima por conta dos gastos com os animais e ajudo ela sempre, de maneira que até mesmo me aperta um pouco mas ela precisa dessa ajuda, pois lá poucos são os que se importam com as animais. Sabe, sendo franco, já estive para fazer depósitos em sua conta e aí me lembro da situação de minha mãe.. Choro, sinto saudades enfim, acabo por ajudá-la. Eu quero fazer um compromisso com você, meibel, pois conheço seu sofrimento. Pode contar com uma ajuda de R$50,00 mensal fixo. Farei o depósito na conta que vc me postou no orkut. Não pare. Disse Jesus: "os pobres sempre os terão". Incluo nesse termo "animais abandonados e maltratados". Fique com Deus. Força, fé e esperança para você.

Projeto Hammã disse...

Olá Maurício,

Interessante que entre quase 2000 contatos,sabemos quem é você,sem nunca ter nos visto ou falado.É onde a luz se reconhece.

É com muita tristeza que digo à você que em Goiânia existem muitos José,assim como vieram muitos Hammã,não vá muito longe...visite o CCZ.Fizemos um trabalho de acompanhamento lá em 2009,podemos afirmar com toda propriedade que é algo incabível à nós,pessoas de bem.

E com a mesma tristeza,afirmo que 80% da ajuda que nos chegam,são de pessoas como você e sua família.Que estão marchando com a mesma bandeira.A explicação talvez esteja na prática.Só quem conhece o sofrimento de um animal e sua gratidão,podem mensurar o tamanho da questão.
Muitos gostam,se preocupam e até levantam a bandeira...mas suportar o peso dela,é previlégio de poucos.
Obrigada pelas palavras de incentivo.
Grande abraço,fique com Deus.

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